O professor da Pós-graduação em Tradução da Universidade Gama Filho, da disciplina de Práticas de Tradução Literária, é duas vezes premiado com o Jabuti de Tradução, tradutor dos principais autores contemporâneos da literatura hispânica: Gabriel García Márquez, Eduardo Galeano, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Jorge Luis Borges etc., autor de 14 livros, jornalista dos principais diários hispânicos e brasileiros.
Eric, como é traduzir uma obra como O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar?
Na verdade eu acho que todo livro é diferente um do outro, senão a gente ia ficar no samba de uma nota só e a vida ia ser meio chata. Eu traduzi mais de 50 livros e sem a menor sombra de dúvidas O Jogo da Amarelinha é o mais difícil de todos; e entre esses todos, eu quero lembrar que eu traduzi Juan Rulfo, traduzi uns 7, 8 livros de García Márquez, alguns contos de Cortázar do livro As armas Secretas, traduzi uns 15, 16 livros do Eduardo Galeano, que é muito bom de ler, mas muito difícil de traduzir, em suma, eu posso passar todos eles em revista e nunca foi tão difícil como Rayuela - O jogo da Amarelinha. É uma coisa meio difícil de eu explicar, mas pra mim o mais difícil até hoje, até esse livro, nunca era propriamente dificuldade técnica, muitas vezes eu tinha barreiras e dificuldades afetivas, que são as piores, porque eu lembrava do autor, autores que foram meus amigos. Basicamente eu traduzo por afeto, eu não sou um tradutor, eu sou um escritor que traduz. Já taduzi livros de pessoas que eu não conhecia, mas que tinha alguma ligação. Quando eu fiz 60 anos em2008, a minha editora, que é a Luciana Villas Boas, da Editora Record, me deu dois presentes de aniversário provocados pelo meu filho Felipe, que é documentarista. Um foi uma antologia pessoal dos meus contos e o outro foi traduzir O jogo da Amarelinha, uma nova tradução. Esse é um dos poucos livros que eu a cada dois, três anos releio, não todo ele, evidente, mas trechos, capítulos são coisas que me emocionam muito e o Cortázar era uma pessoa que me emocionava profundamente. Ele foi das pessoas mais cálidas e carinhosas que eu já conheci. Traduzir pra mim é você ver a paisagem por dentro, você tem de entrar na paisagem. Em vez de você estar na janelinha do trem vendo a paisagem, você está na paisagem vendo o trem passar, vendo você na janelinha. Este é um trabalho extremamente minucioso. De vez em quando eu entro no ritmo.
Eric, como é traduzir uma obra como O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar?
Na verdade eu acho que todo livro é diferente um do outro, senão a gente ia ficar no samba de uma nota só e a vida ia ser meio chata. Eu traduzi mais de 50 livros e sem a menor sombra de dúvidas O Jogo da Amarelinha é o mais difícil de todos; e entre esses todos, eu quero lembrar que eu traduzi Juan Rulfo, traduzi uns 7, 8 livros de García Márquez, alguns contos de Cortázar do livro As armas Secretas, traduzi uns 15, 16 livros do Eduardo Galeano, que é muito bom de ler, mas muito difícil de traduzir, em suma, eu posso passar todos eles em revista e nunca foi tão difícil como Rayuela - O jogo da Amarelinha. É uma coisa meio difícil de eu explicar, mas pra mim o mais difícil até hoje, até esse livro, nunca era propriamente dificuldade técnica, muitas vezes eu tinha barreiras e dificuldades afetivas, que são as piores, porque eu lembrava do autor, autores que foram meus amigos. Basicamente eu traduzo por afeto, eu não sou um tradutor, eu sou um escritor que traduz. Já taduzi livros de pessoas que eu não conhecia, mas que tinha alguma ligação. Quando eu fiz 60 anos em
Até o momento você já encontrou algum obstáculo nesta tradução da obra do Cortázar?
Até o momento... eu estou há um ano... mais! Estou há um ano e meio traduzindo e eu já encontrei 426 obstáculos por capítulo (risos). Todos os obstáculos que você possa imaginar! (risos). Mas é sempre um prazer! Eu pretendia ter entregado o livro em fevereiro de 2010, aí eu fiz um novo acordo com a Record, que tem uma paciência comigo que nem minha avó materna tinha, e eu pretendo entregar até o final do ano (2010) de tal forma que ele possa ir ano que vem (2011).
Você sempre diz que só traduz amigos. Qual é a importância desse grau de proximidade com o autor no seu trabalho?
Eu digo que só traduzo amigos pra impressionar as moças... (risos) é verdade. Eu já traduzi pessoas que eu nunca vi na vida ou pessoas que eu conhecia muito superficialmente. Agora o que eu sim insisto e aí é sério, é que eu só traduzo coisas do meu universo, coisas que me importam, que tem a ver com a minha vida, com a minha maneira de ver o mundo, com a minha maneira de entender o ser humano, com a minha ideologia. Eu já recusei traduções de obras que eu posso até gostar, mas que "não fazem parte do meu show".
Dentre as muitas experiências que você tem, conta pra gente uma cômica e uma prazerosa.
Prazerosa: todas! E sempre que eu acabo um livro, eu acho que esse prazer superou o anterior, aí,só pra concluir, eu acho que o prazer de verdade vai ser no próximo. Agora, cômica... tem um sem-fim ! Os erros que eu cometo traduzindo são infinitos... alguns eu pego, outros eu só pego depois de pronto. (risos)Traduzindo Horacio Quiroga, para você ver como esse mundo é injusto, eu fiz uma contribuição enorme pra biologia, pra zootecnia, e principalmente para o estudo específico da cobra coral. O que diz o Quiroga: o camarada está andando no mato e pisa em algo blanduzco[algo mole], dá um pulo pra trás e vê que esse algo blanduzco é uma cobra coral. Eu li "blancuzco"[esbranquiçado] (risos). Essa é uma obra muito elogiada e eu reivindico pra mim porque o verdadeiro mérito é zootécnico e eu fui o provador que existe "cobra coral albina" (muitos risos). Com o Galeano, eu tenho uma por livro. A gente briga palavra por palavra... eu traduzo Galeano há 35 anos, e a gente diz assim: - Eduardo, isso não funciona em português. - Eric, o livro é meu! - Eu sei, mas a tradução é minha! - Sim, mas o texto é meu! E ele ganha sempre... (risos) E eu quero deixar claro que ele sempre ganha não de maneira decente, nem por razões técnicas, mas sim porque ele é meu "irmão" mais velho; e eu, como irmão mais velho lá em casa, lembro o que eu fazia com minhas irmãs... (risos) então eu acato por medo e não por convencimento (muitos risos). Com o García Márquez eu tive um incidente que foi muito engraçado. Na época do fax, eu mandei um fax pra ele com algumas palavras que eu tive muitas dúvidas, que eram dúvidas pertinentes, porque eram palavras que podiam ter um sentido ou outro que cabiam perfeitamente, só que aí o conto ia adotar um tom mais triste ou um tom mais irônico. Então eu mandei pra ele várias questões e ele respondeu dizendo o seguinte:- ¡Vete al diccionario! Quer dizer: "vá ao dicionário". Eu fiquei furioso, porque eu nunca consultei ele (sic) pra nada, porque eu sei que ele odeia... Eu fiquei tão furioso, que eu peguei o fax dele, fiz uma fotocópia e mandei de volta dizendo assim embaixo: Eu fui ao dicionário várias vezes, agora, ¡vete a la mierda! (muitos risos). Mandei um Prêmio Nobel à merda. Aí, na semana seguinte a gente se falou ao telefone, ele ria, ria. No Viver para Contar, que é o livro de memórias dele, ele falou: - E aí, como foi a tradução? - Foi, muito legal, muito bom...dificuldade nenhuma... porém tem uma coisa: tem uma hora que você fala, "quando menino, você voltava da escola com seus cuadernos de calella"... - Não, eu não digo isso. - Sim, você diz isso. Procure aí.- Quem é que está ligando?- É você, Gabo.- Ah, sou eu? Então eu posso gastar, você é pobre, você não pode (risos). Vamos procurar! Aí eu entrei no computador, vi a página, falei pra ele, ele viu também e disse:- É mesmo... eu falei isso... Como é que você traduziu? - Cadernos de calella. Porque eu fiquei pensando: é caderno quadriculado, é bloquinho de notas... Aí ele disse:- Então ficou em português...? - Caderno de calella - respondi. - Legal, soa bem, e o que quer dizer isso em português? Eu falei:- Nada!- Ui, que alívio! Porque em castellano também não! Eu não tenho ideia porque eu usei isso! (risos)
Ping-Pong: defina com uma palavra ou frase o que estas palavras (conceitos) representam para você:
família: sou muito unido aos meus irmãs e irmãos. Meu filho é, de longe, a melhor coisa que fiz na vida. Espero ter conseguido com ele o que tive com meu pai: ser amigo. E tenho a mesma namorada há 40 anos.
Até o momento... eu estou há um ano... mais! Estou há um ano e meio traduzindo e eu já encontrei 426 obstáculos por capítulo (risos). Todos os obstáculos que você possa imaginar! (risos). Mas é sempre um prazer! Eu pretendia ter entregado o livro em fevereiro de 2010, aí eu fiz um novo acordo com a Record, que tem uma paciência comigo que nem minha avó materna tinha, e eu pretendo entregar até o final do ano (2010) de tal forma que ele possa ir ano que vem (2011).
Você sempre diz que só traduz amigos. Qual é a importância desse grau de proximidade com o autor no seu trabalho?
Eu digo que só traduzo amigos pra impressionar as moças... (risos) é verdade. Eu já traduzi pessoas que eu nunca vi na vida ou pessoas que eu conhecia muito superficialmente. Agora o que eu sim insisto e aí é sério, é que eu só traduzo coisas do meu universo, coisas que me importam, que tem a ver com a minha vida, com a minha maneira de ver o mundo, com a minha maneira de entender o ser humano, com a minha ideologia. Eu já recusei traduções de obras que eu posso até gostar, mas que "não fazem parte do meu show".
Dentre as muitas experiências que você tem, conta pra gente uma cômica e uma prazerosa.
Prazerosa: todas! E sempre que eu acabo um livro, eu acho que esse prazer superou o anterior, aí,só pra concluir, eu acho que o prazer de verdade vai ser no próximo. Agora, cômica... tem um sem-fim ! Os erros que eu cometo traduzindo são infinitos... alguns eu pego, outros eu só pego depois de pronto. (risos)Traduzindo Horacio Quiroga, para você ver como esse mundo é injusto, eu fiz uma contribuição enorme pra biologia, pra zootecnia, e principalmente para o estudo específico da cobra coral. O que diz o Quiroga: o camarada está andando no mato e pisa em algo blanduzco[algo mole], dá um pulo pra trás e vê que esse algo blanduzco é uma cobra coral. Eu li "blancuzco"[esbranquiçado] (risos). Essa é uma obra muito elogiada e eu reivindico pra mim porque o verdadeiro mérito é zootécnico e eu fui o provador que existe "cobra coral albina" (muitos risos). Com o Galeano, eu tenho uma por livro. A gente briga palavra por palavra... eu traduzo Galeano há 35 anos, e a gente diz assim: - Eduardo, isso não funciona em português. - Eric, o livro é meu! - Eu sei, mas a tradução é minha! - Sim, mas o texto é meu! E ele ganha sempre... (risos) E eu quero deixar claro que ele sempre ganha não de maneira decente, nem por razões técnicas, mas sim porque ele é meu "irmão" mais velho; e eu, como irmão mais velho lá em casa, lembro o que eu fazia com minhas irmãs... (risos) então eu acato por medo e não por convencimento (muitos risos). Com o García Márquez eu tive um incidente que foi muito engraçado. Na época do fax, eu mandei um fax pra ele com algumas palavras que eu tive muitas dúvidas, que eram dúvidas pertinentes, porque eram palavras que podiam ter um sentido ou outro que cabiam perfeitamente, só que aí o conto ia adotar um tom mais triste ou um tom mais irônico. Então eu mandei pra ele várias questões e ele respondeu dizendo o seguinte:- ¡Vete al diccionario! Quer dizer: "vá ao dicionário". Eu fiquei furioso, porque eu nunca consultei ele (sic) pra nada, porque eu sei que ele odeia... Eu fiquei tão furioso, que eu peguei o fax dele, fiz uma fotocópia e mandei de volta dizendo assim embaixo: Eu fui ao dicionário várias vezes, agora, ¡vete a la mierda! (muitos risos). Mandei um Prêmio Nobel à merda. Aí, na semana seguinte a gente se falou ao telefone, ele ria, ria. No Viver para Contar, que é o livro de memórias dele, ele falou: - E aí, como foi a tradução? - Foi, muito legal, muito bom...dificuldade nenhuma... porém tem uma coisa: tem uma hora que você fala, "quando menino, você voltava da escola com seus cuadernos de calella"... - Não, eu não digo isso. - Sim, você diz isso. Procure aí.- Quem é que está ligando?- É você, Gabo.- Ah, sou eu? Então eu posso gastar, você é pobre, você não pode (risos). Vamos procurar! Aí eu entrei no computador, vi a página, falei pra ele, ele viu também e disse:- É mesmo... eu falei isso... Como é que você traduziu? - Cadernos de calella. Porque eu fiquei pensando: é caderno quadriculado, é bloquinho de notas... Aí ele disse:- Então ficou em português...? - Caderno de calella - respondi. - Legal, soa bem, e o que quer dizer isso em português? Eu falei:- Nada!- Ui, que alívio! Porque em castellano também não! Eu não tenho ideia porque eu usei isso! (risos)
Ping-Pong: defina com uma palavra ou frase o que estas palavras (conceitos) representam para você:
família: sou muito unido aos meus irmãs e irmãos. Meu filho é, de longe, a melhor coisa que fiz na vida. Espero ter conseguido com ele o que tive com meu pai: ser amigo. E tenho a mesma namorada há 40 anos.
amigos: meu maior patrimônio.
profissão: não tenho profissão, tenho ofício: escrever.
trabalho: melhor mais que menos.
felicidade: às vezes, existe.
Você como um grande tradutor, que dicas tem a deixar para a nova geração de tradutores?
Não sou grande tradutor. Traduzo por afeto, e por isso mesmo me empenho o máximo possível. E mesmo quando traduzo por curiosidade, o empenho é o mesmo. A dica é respeitar e ser leal ao texto, ao autor e, claro, ao nosso idioma. E, por favor, em tradução literária, jamais fazer duas coisas; a primeira: tentar melhorar o texto do autor e facilitar o trabalho do leitor; e a segunda: jamais, nem debaixo de tortura, usar asterisco e pé de página.
Você como um grande tradutor, que dicas tem a deixar para a nova geração de tradutores?
Não sou grande tradutor. Traduzo por afeto, e por isso mesmo me empenho o máximo possível. E mesmo quando traduzo por curiosidade, o empenho é o mesmo. A dica é respeitar e ser leal ao texto, ao autor e, claro, ao nosso idioma. E, por favor, em tradução literária, jamais fazer duas coisas; a primeira: tentar melhorar o texto do autor e facilitar o trabalho do leitor; e a segunda: jamais, nem debaixo de tortura, usar asterisco e pé de página.
arretado !
ResponderExcluirMuito bem humorada e agradável a entrevista. Parabéns! Esse tipo de iniciativa auxilia bastante os tradutores em "início de carreira".Ana Seno
ResponderExcluirEle é fantástico! Adorei a entrevista!!!
ResponderExcluir